Livro das Lamentações de Jeremias (Lm) - Capítulo 3
2A mim ele levou e fez andar nas trevas, não na luz.
3Apenas contra mim ele voltava sua mão todo dia.
4Buiu minha pele e minha carne e partiu-me os ossos.
5Bloqueios armou à minha volta de fel e tormento.
6Botou-me a morar lá nas trevas com os mortos e enterrados.
7Cercou-me com um muro sem saída, acorrentada, me prendeu.
8Clamar ou gritar nada vale, está surdo à minha prece.
9Com pedras ele cercou os meus caminhos, revirou meus atalhos.
10Despontou para mim como um urso, ou leão na tocaia.
11Desviou-me do caminho e atacou-me, deixou-me arrasada.
12Disparando o seu arco fez de mim o alvo de suas setas.
13Em meus rins ele cravou suas flechas, tiradas de sua aljava.
14Eu me tornei piada para o povo, a cantoria de todo o dia.
15Encheu meu estômago de amargura, embriagou-me de fel.
16Fez-me dar com os dentes nas pedras, pisou-me na poeira.
17Fugiu a paz, longe do meu espírito, felicidade acabou.
18Falei: ?Terminou meu prestígio, desiludi-me do Senhor!?
19Guarda em mente minha opressão e sofrimento de fel e veneno.
20Guardo bem esta triste lembrança no fundo de minh? alma.
21Gravei tudo isso em minha mente, aí está minha esperança.
22Há bondade no Senhor, sem fim, misericórdia que não acaba!
23Hoje e sempre está se renovando, sua grande fidelidade.
24?Herança minha é o Senhor ? eu digo ? por isso, nele espero?.
25Imensa é a bondade do Senhor, com quem o espera e procura.
26Importante é aguardar em silêncio o socorro do Senhor!
27Iniciar a vida sob o jugo é coisa muito boa.
28Junte-se a isso, ficar só e calado, quando é exigido,
29jogar-se de boca na poeira, há esperança, talvez,
30justamente a quem bateu, dar o rosto, saciar-se de insultos.
31Longe está do pensamento do Senhor rejeitar para sempre.
32Logo após castigar, se compadece, grande é seu amor.
33Levar opressão e tortura ao ser humano não lhe está no coração.
34Multidões de prisioneiros do país serem esmagados sob os pés,
35massacrarem-se os direitos do homem na presença do Altíssimo,
36mudar-se a sorte do indivíduo no tribunal, o Senhor não vê?
37Ninguém fala e faz acontecer, o Senhor é quem decide.
38Não é da boca do Altíssimo que vem bênção e maldição?
39Nada há de que o homem vivo se queixar, cada qual com seus pecados.
40?Observemos e olhemos nossos caminhos, e voltemos para o Senhor.
41Os corações com as mãos elevemos para Deus lá nos céus.
42Obedecer não quisemos e pecamos: por isso não perdoaste.
43Possuído de ira, nos perseguiste e mataste sem piedade.
44Puseste à tua frente uma nuvem para embargar nossa oração.
45Parecendo lixo e refugo nos deixaste no meio dos povos.
46Quantos inimigos contra nós abrem a boca!
47Que pavor e ameaça para nós de ruína e derrota!?
48Quase um rio de lágrimas derramo pela derrota de meu povo!
49Rolam-me lágrimas dos olhos sem trégua ou descanso.
50Reclamo que apareça o Senhor e olhe lá do céu.
51Recrudesce minha dor só de olhar as filhas da cidade.
52Semelhante a um pássaro caçaram-me inimigos gratuitos.
53Sufocaram minha vida na cova, sobre mim jogaram pedras.
54Subiu-me a água sobre a cabeça, pensei: ?Estou perdido!?
55Teu nome eu invoquei, ó Senhor, do fundo da cova.
56Tu ouviste meu apelo: ?Não sejas surdo a meus gemidos e clamores.
57Tu te achegaste quando eu te chamei, disseste: ?Não temas!?
58Um defensor de minha causa tu te tornaste, livraste a minha vida.
59Unge-te meu juiz, ó Senhor, tu viste minha opressão.
60Urdindo tu os viste, contra mim, toda espécie de vingança.
61Viste, Senhor, os seus insultos, o que tramaram contra mim.
62Viste seus lábios e as intrigas diárias contra mim.
63Vigia os seus movimentos todos, eu lhes sirvo de caçoada.
64Zelarás, Senhor, pelo que fizeram, dando-lhes castigo:
65Zerado estará seu raciocínio pela tua maldição.